terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Uma reflexão sobre as problemáticas de uma “identidade afroindígena”



Já como forma de acalmar os ânimos de quem for ler e posteriormente discordar, não estou propondo uma verdade absoluta. É complicado ter que começar uma reflexão dessa maneira, mas hoje em dia tem sido difícil comentar sobre qualquer coisa na internet.


Minha reflexão parte a princípio de uma interpretação minha constituída através de longas conversas com outros indígenas ao longo de três anos, em que a esmagadora maioria apresenta o mesmo incômodo que eu. A forma como eu construo minha reflexão não é necessariamente a reflexão dos parentes com quem conversei, partilhamos especificamente do incômodo da questão de uma identidade afroindígena.


Eu divido meu ponto em três partes, as quais discorrerei separadamente: 1) não acredito que exista uma identidade afroindígena; 2) uma identidade afroindígena é etnocida; 3) e perpetua uma visão romantizada do que é ser indígena.
Não acredito que exista uma identidade afroindígena.


Em minha concepção, identidade não é ancestralidade. São coisas interligadas, mas não são a mesma coisa. A fim de tentar explicar essa diferenciação, é preciso fazer um resgate histórico do Brasil acerca dos processos de miscigenação e embranquecimento e da construção do “índio”.


O Brasil foi construído sobre a tal da miscigenação, que foi na verdade um processo de extremas violências aos povos indígenas e ao povo preto, incluindo estupros das mulheres, genocídio e, em específico aos primeiros, etnocídio. Dessa forma, posso arriscar fazer a afirmação ousada e talvez pretensa de que não existe ninguém com sangue puro nesse país, porque em algum momento de sua árvore genealógica, terá existido alguma espécie de relacionamento inter-racial, mesmo que você desconheça, pelo simples fato de que a miscigenação foi uma política de Estado. E apenas para não deixar dúvidas: relacionamento cá não implica em consentimento, algo positivo ou mesmo estabelecido legalmente.


Por conta da miscigenação e da consequente inexistência de pureza racial no Brasil, decorre-se que, de forma geral, temos combinações de ascendências. Isto é, podem-se ter ancestralidades dos três povos ditos constituintes da nação: indígena, preto e branco. Não necessariamente dos três, mas também não somente de um, pois, estou partindo da minha hipótese de que não há purismo racial no Brasil. Após o século XX, há a vinda dos amarelos e, portanto, constituem-se como um novo integrante nessa questão. O foco neste momento é anterior ao século XX, portanto, considerarei apenas indígenas, pretos e brancos e desconsiderarei a questão do pardo, por motivos de que fugiria do meu tópico de reflexão.


Mas, afinal, e a identidade? A princípio, cada povo apresenta sua própria concepção de identidade e não pretendo me alongar nessas distinções, porque seria impossível, pois, para as tratar de maneira detalhadamente correta, precisaríamos conhecer a concepção do que é ser indígena para cada etnia (reconhecida ou não pela Funai), ou seja, mais de 305 povos, além da concepção da identidade negra/preta para os quilombolas e cada corrente do movimento negro e, por fim, da identidade amarela para os diferentes povos que estão englobados nesta categoria racial. Humanamente impossível, né? Então, trabalharei com o básico, partindo de duas perspectivas.

  • A perspectiva estatal/legal/burocrática, centrada principalmente no IBGE através dos Censos e da PNAD. 
De forma resumida, atualmente há cinco categorias de classificação racial no país: indígena, pardo, preto, amarelo e branco. Por que eu falo atualmente? Porque a composição das classificações raciais não foram sempre assim, na verdade, ela é assim desde 1991. O primeiro recenseamento do país foi em 1872 e foi dividido em duas dimensões: população livre (branco, pardo, preto e caboclo) e população escrava (preto e pardo). Para além das inúmeras falhas metodológicas e analíticas desse recenseamento, foco minha atenção para a categoria caboclo, que esteve presente somente neste Censo e no seguinte de 1890, representando índios e descendentes de índios com brancos.


Um importante fator a ser posto aqui é a questão de que índio era considerado como uma categoria social transitória até a década de 1970, ou seja, após passar pelo processo de integração social e assimilação cultural, índios deixavam de ser índios e eram realocados em outras categorias raciais. Obviamente isso se refletiu nos recenseamentos de 1872 e 1890, de forma a gerar uma subnotificação da população indígena no país. Assim como é refletido até os Censos atuais, mesmo com a presença da categoria indígena, incluída somente em 1991.


Como assim indígena só entrou no IBGE em 1991? Exatamente. Por “oficialmente” 101 anos, não houve uma categoria separada para indígenas nos recenseamentos, mas se formos tratar das problemáticas da categoria caboclo, então, podemos dizer que indígenas nunca estiveram separadamente de fato no Censo antes de 1991. A classificação racial foi excluída dos Censos de 1900, 1920 e retornou somente em 1940, mas somente com as categorias branca, preta, parda (alterada especificamente naquele ano para “mestiço”) e amarela. Nos posteriores recenseamentos, indígenas entraram invisivelmente na categoria pardo e assim se seguiu até 1991. Todos esses processos de exclusão e apagamento da identidade indígena se configuram como violências aos povos originários, que continuam sistematicamente tendo seu direito à identidade negado até os dias atuais, pois, há processos extensos e burocráticos para validar/legitimar a identidade de um indivíduo assim que ele se autodeclara indígena, principalmente se ele não residir em Terra Indígena, o que não ocorre com as demais categorias.


Entretanto, embora contenham inúmeras problemáticas no IBGE, há um ponto que não pode ser negado: não existem categorias de classificação racial denominadas explicitamente birraciais ou plurirraciais. O pardo também está fora de questão, apesar de ter sua origem na ideia da mestiçagem, pois, ele se configura como uma nova identidade racial, que é alvo de críticas (extremamente pertinentes, por sinal) dos movimentos indígena e negro. Mas, o ponto é: pardo não evoca duas ou mais identidades raciais ao mesmo tempo. Pois, novamente, identidade não é ancestralidade. Não há nos meios burocráticos categoriais como afroindígena, euroindígena, euroafro/afroeuro, afronipo, nipoindígena, euronipo, etc.


É possível até ir na análise da aplicação de políticas públicas de caráter racial, que são voltadas às categorias indígena, preto e pardo e constituídas de forma a pensar no atendimento das demandas e necessidades dessas três categorias. Mas esse seria um assunto pra outra hora... 


  • A perspectiva dos movimentos sociais e políticos que pautam a questão racial, em específico dos movimentos negro, indígena e amarelo (constituído recentemente). 

Como já falei anteriormente, não pretendo tratar especificamente de cada interpretação do que é a identidade negra, indígena e amarela dentro de seus contextos específicos. O intuito é o reconhecimento da constituição de cada movimento que se fez a partir de seus processos históricos e perspectivas e visões de mundo, todos distintos entre si. No entanto, há um consenso entre os três: uma pessoa branca é uma pessoa branca. Não há dentro dos movimentos negro e amarelo pessoas que se autodeclaram euroafro/afroeuro ou euro-amarela (não sei nem qual termo seria, porque nunca nem vi falarem algo absurdo do tipo, hahaha). Tampouco há no movimento indígena pessoas que se autodeclarem euroindígenas. Em todos os casos, estamos falando provavelmente de pessoas brancas que romantizam as identidades indígena, negra e amarela, ignorando convenientemente as partes das violências e violações.


Particularmente, acho extremamente bizarra essas ideias, o que penso que talvez você - pessoa que está lendo - tenha acordo. MAS, há uma normalidade e naturalidade quando a questão é afroindígena. O que nos leva à segunda parte da minha reflexão.


2. Identidade afroindígena é etnocida


O que é o etnocídio? Resumidamente, é o processo de extermínio das culturas e identidades indígenas/originárias. No Brasil, aplicado através de diversas formas como políticas de Estado, construção do pensamento e da identidade brasileira, criação do estereótipo do índio, etc. Citei os três, pois, são os que pretendo discutir pelo menos minimamente nessa parte, apesar de terem mais formas de aplicação dos processos etnocidas.


Primeiramente, é preciso compreender o significado e a construção do termo índio, pois, está diretamente ligado com a questão da autodeclaração e das identidades indígenas. Índio foi um termo criado pelo homem branco para se referir aos povos originários de Abya Yala (continente hoje chamado América) desde a invasão em 1492. Hoje em dia, há debates teóricos que falam inclusive sobre a criação da própria noção de raça somente após o contato dos europeus com os povos daqui, a exemplo do sociólogo Aníbal Quijano. Em meio a construção do que era o índio, características de personalidade carregadas de preconceitos e discriminações raciais foram postuladas: selvagem, hostil, primitivo, preguiçoso, bugre. Além disso, o índio também carrega estereótipos fenotípicos e de costumes como, por exemplo: canibal (sic), anda pelado, tem cabelo liso lambido, olho puxado, pele vermelha, vive no meio do mato, em uma tribo (sic), obrigatoriamente atira com arco e flecha e zarabatana, não fala português, faz a “dança da chuva” e um som de “uh uh uh uh” batendo a mão na boca como forma de comunicação... e uma última característica que permeia o índio é a ideia de um ~purismo racial~.


Tá tudo errado. Mas foi assim que a imagem do que era o indígena foi construída e adentrou no pensamento social do brasileiro, persistindo até os dias de hoje.


Apenas breves desconstruções e correções acerca dos estereótipos, antes de continuar minha reflexão sobre o porquê de afroindígena ser etnocida (não, eu não esqueci o objetivo disso tudo):
  • A noção de primitivismo se teoriza através da criação e desenvolvimento do evolucionismo cultural na Antropologia, criando conceitos como tribo, que é explicado abaixo por uma imagem que de quebra expõe também a questão do primitivismo. Por que eu digo sobre teorizar? Porque esse pensamento não nasceu no século XIX, basta ver as cartas do próprio Pero Vaz de Caminha, da Igreja Católica sobre não nos considerarem humanos e não termos alma, sobre a escravização de nossos ancestrais e assim por diante. 



  • Bugre é um termo pejorativo que foi usado para designar principalmente indígenas não-convertidos ao catolicismo, mas também para justificar a escravização, pois, sua origem vem de conflitos religiosos na Bulgária no século IX e tem o significado de herege, isto é, quem está contra as doutrinas e dogmas da Igreja Católica. 

  • O mito do índio ser selvagem tem suas peculiaridades, pois, historicamente, convencionou-se duas representações acerca da identidade indígena, fundamentada e popularizada posteriormente no indianismo brasileiro: o bom selvagem e o primitivo hostil. Tais representações não permaneceram somente no âmbito literário, foram e são constitutivas no pensamento brasileiro. 


O bom selvagem era o índio aliado aos portugueses e que fora forçado aos processos de assimilação cultural e integração social para que saísse de seu estágio primitivo e animalesco e, posteriormente, viesse a ser um cidadão brasileiro e, portanto, “civilizado”. Aqui, novamente, encontramos a caracterização do índio como uma categoria social transitória. Esse indígena “aculturado” e “integrado”, no entanto, não viraria branco, daí surgem nomenclaturas para classificar esses “novos indivíduos”, a exemplo de tapuio, caipira, gaúcho, sertanejo, caboclo, caiçara, pardo, etc. Disto, apaga-se a noção de uma identidade indígena e um falso pertencimento a outro grupo racial.


Ademais, como o índio apresenta uma premissa de suposto purismo racial, a partir do momento em que uma pessoa nasce de um relacionamento inter-racial em que pai ou mãe é indígena, essa pessoa já não é mais indígena, mas descendente de indígena, e assim serão todos os futuros indivíduos da linhagem. Essa postura de negação de identidade não se aplica às demais raças no Brasil, pois, elas não requerem o pressuposto do purismo racial como determinante para legitimar quem o indivíduo é racialmente. Isso é aceito naturalmente e reproduzido pela maioria da sociedade, sem produzir os menores questionamentos acerca da questão, pois, está profundamente penetrado no imaginário brasileiro que o índio é tal estereótipo do século XVI. Tem-se um cenário em que todos os povos têm o direito de acompanharem as inovações tecnológicas, culturais e sociais, com exceção dos povos originários, pois, estes devem permanecer de acordo com um estereótipo criado pelo homem branco no século XVI... e que sequer abrangia toda a diversidade e pluralidade dos povos indígenas, inclusive fenotípica!


Dessa maneira, entra também a questão do que se convencionou como “fenótipo indígena” (cabelo liso lambido e escorrido, olho puxado e a pele parda avermelhada), construído novamente pelo estereótipo do homem branco baseado em determinados povos e que ignora completamente o processo de miscigenação e embranquecimento da população. Curiosamente, o estereótipo do índio vem carregado de elementos culturais de povos que sequer são do que é hoje chamado Brasil, a exemplo da famosa “dança da chuva” e do som de ‘uh uh uh’ batendo a mão na boca como forma de comunicação amigável. É fato que há povos que apresentam gritos que se assemelham a esse som, mas até onde eu sei, isso não é feito de maneira a bater na boca. Um exemplo que me veio a mente em torno dessa situação, foi de uma parenta que ouvi em que uma vez fizeram esse som para um indígena no Rio de Janeiro, na época da Copa ou das Olimpíadas (não me recordo) e aquilo representava um chamado pra guerra. Ele pegou sua borduna e queria correr atrás da pessoa, então, essa parenta teve que falar que não era um chamado pra guerra, a pessoa simplesmente estava reproduzindo um estereótipo racial e, portanto, sendo babaca.


Mas, afinal, e o primitivo hostil? Era o índio considerado em seu estágio primeiro, “puro”, “não-civilizado”, mas também se referia aos povos considerados inimigos da Coroa Portuguesa, basicamente, o oposto do bom selvagem. A representação do primitivo hostil frequentemente se associa ao tal do “canibalismo”, termo extremamente equivocado e pejorativo.
  • A antropofagia é erroneamente chamada de canibalismo e é tida como caracterizante de todos os índios, contudo, os rituais antropofágicos não eram presente em todos os povos originários e tampouco esvaziados de significados, como a noção de canibalismo passa. Não, um indígena não vai te comer (literalmente), até porque os rituais antropofágicos são proibidos há mais séculos no Brasil. E como um parente Tupinambá faz piada: “essa história de que a gente comia os brancos não faz sentido. Nós nos alimentávamos da carne de outro ser humano pra absorver seu espírito guerreiro e sua força, por que nós comeríamos branco se eles só traziam doença e morte pra nós?” (pessoas brancas, isso é uma piada pra desconstruir o estereótipo que seus ancestrais criaram sobre nós, apenas superem e lidem sem fazer drama, faz favorzinho) 
  • Não, nós não somos preguiçosos nem éramos! Apenas tínhamos/temos outros modos de organização social, outra concepção de temporalidade, outra visão de mundo, outra relação com o meio. Os europeus presos em sua lógica mercantil-capitalista não sabiam respeitar outras formas de organização social, política, econômica e temporal, porque eles acreditavam que os povos que não estavam no mesmo estágio que eles, eram atrasados e precisavam se desenvolver, então, impuseram seus modelos a todo o mundo, mesmo que implicassem em genocídios, massacres, subjugação e escravidão. Curiosamente, quem menos trabalha no mundo hoje é europeu, mas quem é designado como preguiçoso? Isso mesmo, não são eles. E por que isso acontece? Porque há uma estrutura de exploração das terras colonizadas, fundamentada atualmente no imperialismo da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Mas não vou fazer uma análise do sistema capitalista aqui porque não é o objetivo, certo? Certo. 
  • E os últimos estereótipos do índio que eu citei lá em cima que não são necessariamente inverdades, mas também não totalmente verdades. COMO ASSIM, MANO? 


É o seguinte: sim, a nudez era algo presente em muitos povos, mas existiam povos que tinham suas vestimentas tradicionais também. E além disso, a nudez tinha sido proibida pelo Estado na colonização e foram impostas vestimentas aos povos originários, então... segue a lógica né?


“Viver no meio do mato”, essa é uma expressão meio bosta pra mim, parece ter um ar de algo negativo ou inferior... mas, sim, a natureza era preservada e vivíamos/vivemos em harmonia com ela. A questão é: lembra dos processos de integração social? Então, isso significava, para além da escravização, retirar o indígena de seu território ancestral e o jogar ao léu nas grandes cidades, gerando um processo de marginalização e exclusão social, criando as famosas periferias urbanas. Então, sim, há indígenas na aldeia em meio a natureza, com as florestas em pé, preservadas. Mas também estamos nas cidades, vivendo em centros urbanos, podemos ser seus vizinhos. E também há aldeias nas cidades, que são as chamadas aldeias urbanas, por exemplo o Real Parque no Morumbi, sabe Paraisópolis? Construída em torno de aldeias e esses indígenas ainda vivem lá sim e continuam sendo indígenas.


“Obrigatoriamente atirar com arco e flecha e zarabatana”: bem resumidamente mesmo, o Estado ao longo de cinco séculos proibiu os povos originários de exercerem e viverem em suas culturas, com suas práticas e tradições ancestrais. Além de ter forçado migrações e sequestrado indígenas de seus territórios. Não vou nem continuar, mas sério? Sempre que me perguntam se eu sei atirar com arco e flecha, eu digo que sim e que se a pessoa me der um na hora, eu atiro no meio da testa dela... é cansativo ouvir essas perguntas, de verdade. Não somos obrigados a saber, mas podemos saber, e se não soubermos, não somos “menos indígenas” por isso.


Sobre o último estereótipo citado: não poder falar português. Historicamente, os povos originários foram proibidos de falar em suas línguas nativas e forçados a falar... adivinha qual língua? Português. O Brasil até o século XIX falava majoritariamente o Nheengatu, é verdade, mas a imposição de outra língua, mesmo uma que seja derivada do Tupi Antigo (com influências do português de Portugal), ainda é uma forma de violência. Nesse contexto de imposição pra lá, proibição pra cá, muitas línguas se perderam e não podem mais ser recuperadas, então, sim, falamos português e também podemos falar nossas línguas nativas. Não, não é porque uma pessoa é indígena que ela sabe falar todos os idiomas indígenas, porque oficialmente existem 274 idiomas, se você souber falar 275 línguas, você pode pensar em cobrar isso de algum indígena. Caso contrário, contente-se com o nosso português, que também podemos dominar (diferentemente do que o Ministério do Turismo tem propagado). Mas essa é história pra outro dia, hehe. E nossas línguas nativas são uma forma de resistência, não nos cobre tradução se falarmos no idioma originário, talvez estejamos falando justamente pra você não entender.


Depois dessa breve introdução ao debate do estereótipo do índio e da discussão sobre o processo de miscigenação no país, temos um contexto que a mentalidade do brasileiro é de negar ou apagar a identidade indígena dos debates que envolvem questões raciais e da construção histórica das identidades dos brasileiros. Esse contexto se dá por conta do etnocídio vigente, em que se tem uma postura muito comum de se taxar alguém na rua ou na internet de branco ou negro ou amarelo, pois, o indígena é associado ao estereótipo do índio e, consequentemente, nunca é cogitado. Essa questão falarei um pouco mais adiante.


Em meio a essas questões de identidades, tem surgido um discurso de uma nova identidade: afroindígena, que é uma pessoa com ascendência preta e indígena. Não necessariamente é uma pessoa que não tem ascendência branca, mas não é isso que prevalece nela.


Confuso? Um pouco.


Retomemos quando falei de identidade. No Brasil, o Censo de categoria racial é feito por autodeclaração. Ou seja, perguntam qual sua cor/raça e você responde dentro de uma das cinco categorias supracitadas. No entanto, o Estatuto do Índio (criado em 1973) rompe com a noção de categoria social transitória, mas estabelece que os índios precisam de heteroidentificação, isto é, a identidade indígena precisa ser confirmada por terceiros (geralmente um agente do Estado através do antigo SPI e da atual Funai). Após 2004, quando a Convenção 169 da OIT foi promulgada no Brasil, os povos originários garantiram o seu direito à autodeclaração, indo na contramão do Estatuto do Índio e da Funai (fundamentada nos princípios do Estatuto). Como a OIT é de estatuto supralegal, ela só está abaixo da Constituição e esta não dispõe de dispositivos referente à autodeclaração da identidade indígena.


MAS, a Funai tem uma política contraditória de discursar que adota os critérios da Convenção e, ao mesmo tempo, do Estatuto do Índio, no que se refere a definição do que é indígena. Só que é logicamente impossível falar em defesa da autodeclaração da Convenção e da heterodeclaração do Estatuto ao mesmo tempo, pois, o Estatuto está na contramão dos princípios da autodeclaração. Dessa forma, eles resumem seus critérios da seguinte maneira: a) autodeclaração e consciência da identidade indígena; b) reconhecimento da identidade por parte do grupo de origem. Paradoxalmente, a Funai também alega que não é papel do Estado dizer quem é ou não indígena, mas parte do princípio da heterodeclaração e heteroidentificação presentes no Estatuto do Índio, atuando de forma contrária à estrutura do ordenamento jurídico brasileiro, pois, a Convenção deve prevalecer em face os dispositivos do Estatuto.


Nesse enrosco de auto/heteroidentificação, auto/heterodeclaração, em agosto desse ano (2017), a Funai respondeu ao questionamento de um indígena Tupinambá sobre a questão da autodeclaração dessa maneira:



Sim, a Convenção 169 da OIT não é simplesmente sobre dizer “eu sou indígena” e acabou, há complexidades, contanto, a resposta da Funai impede a autodeclaração indígena de muitas pessoas, pois, não leva em conta que povos foram dizimados (e não estou falando do século XVII, é coisa de 50 anos atrás, na ditadura militar) e que o Estado continua buscando nos exterminar. Ignora também todo o processo de miscigenação (a.k.a. estupros sistemáticos) e as políticas etnocidas do Estado aplicadas ao longo de cinco séculos. Ademais, a exigência da formalização pelo órgão é mais uma evidência do monopólio do Estado de, sim, dizer quem é indígena e quem não é.


A sociedade tem papel fundamental nisso também, porque ela atua como agente legitimador do monopólio estatal acerca da identidade indígena, à medida que reproduz o discurso propagado pelo Estado do que é o índio. Em que há a constante postura de negar a indivíduos suas autodeclarações indígenas dizendo que “não são índios” porque não preenchem todos os requisitos estereotipados da cartela imaginária do que é ser indígena. E aqui não estou falando somente sobre a questão de indígenas urbanos, é comum ver em matérias de jornais, sobre representantes indígenas aldeados, comentários que dizem coisas como “é falso índio!”, “nem tem cara de índio, isso não é índio de verdade”, “tá falando português, não é índio”... ou mesmo coisas como “usa celular? computador? calça jeans? óculos? tem carro? vai à universidade? falso índio”. Em suma, constantemente temos nossa identidade negada, seja pela sociedade, seja pelo Estado. E morar na aldeia não livra nenhum indígena de ouvir/ler comentários do tipo.


É um processo de violência que nos atinge em qualquer ambiente, porque no pensamento social do brasileiro, deveríamos ter sido dizimados no século passado, haja vista que éramos somente uma categoria social transitória e no período da ditadura militar, o governo explicitamente ter colocado como objetivo o extermínio dos povos indígenas (como evidenciado no Relatório Figueiredo).


E onde entram os afroindígenas?


Bom, como já falado sobre o processo de miscigenação e das políticas de etnocídio, muitos indígenas nascem e crescem em meio urbano e são designados como pretos, pardos ou até brancos (já vi também amarelo, por incrível que pareça). Essas pessoas crescem e (nem todas) buscam seu resgate histórico, iniciando o que chamamos de processo de autodeclaração. Não é algo fácil, não é algo simples, não é acordar um dia e gritar: eu sou indígena! Longe disso.


Entretanto, é preciso reconhecer que essas pessoas muitas vezes partilham de outras ancestralidades, além da ancestralidade indígena. Retomando a primeira parte que expus sobre identidade ≠ ancestralidade. Mas, tem surgido pessoas que reivindicam as ancestralidades indígena e preta e se autodeclarando afroindígenas, discursando como viveram a infância e adolescência se reconhecendo como negras, que não são “lidas” como indígenas, que não podem abrir mão da ancestralidade preta. No fim, o lado afro prevalece e o lado indígena fica na penumbra.


Não é uma observação apenas minha, não é um incômodo apenas meu, mas é recorrente a postura de atuação dessas pessoas no movimento negro, ao invés do movimento indígena, e quando se fala sobre a ancestralidade indígena, é sempre de um forma idealizada sobre a avó, bisa ou tata (que provavelmente foi estuprada) ou exaltando a questão das religiosidades e cosmologias indígenas, aquela coisa meio exótica, sabe?


Particularmente, acho improvável uma atuação protagonista nos dois movimentos, pois, são processos históricos e sociais diferentes, que compartilham de aspectos, mas que até entre si diferem. Sim, estou falando de racismo, escravidão, genocídio, marginalização, encarceramento, violência policial, etc. Mas todas essas questões se manifestaram e se manifestam de maneiras diferentes entre indígenas e negros. Enquanto no movimento indígena se reconhece isso, muitas vezes não há esse reconhecimento no movimento negro. Não são somente os processos históricos que diferem, as frentes de luta, as perspectivas e as atuações dos movimentos são gritantemente diferentes.


Pra mim, é preciso que se reconheça isso e que se faça uma decisão política de reivindicar uma identidade racial, ao invés de criar uma identidade birracial. E essa reivindicação não significa abrir mão da ancestralidade preta ou indígena ou ignorar as suas experiências de vida. Estou falando como uma pessoa que fez essa decisão, porque eu também carrego algumas marcas da minha ancestralidade preta em mim, mas a minha identidade é indígena, meu espírito é indígena. Eu sou indígena. Não sou “descendente” de indígena. Não é porque sou “mestiça” que deixo de ser quem eu sou, porque brancos, negros e amarelos podem ser mestiços à beça sem serem questionados sobre essa miscigenação e terem suas identidades negadas somente por isso. Por que pra nós, indígenas, é diferente? Não deveria.
  • “Mas você não é lida como indígena” 


Meu amor, ninguém é lido como indígena praticamente nessa sociedade, porque vamos lá de novo: permeia o pensamento social de que o indígena é o índio, o que carrega consigo todos aqueles estereótipos. Só de falar português, um indígena já tem sua identidade questionada, embora constantemente escute “mas você até parece”, “você é descendente né?”. Por que parecemos? Por que somos descendentes? Por que não podemos simplesmente ser? Eu já li por essa internet comentários de não-indígenas que parentes internacionalmente conhecidos na luta não são índios “de verdade”, porque estavam usando óculos ou tinham um celular ou porque “o olho nem é tão puxado”. Pra sociedade, a gente não teve o direito de sair do século XVI, tanto que é comum ler e ouvir por aí que “índio de verdade é aquele que vive isolado na tribo no meio do mato”... ou você nunca viu alguém falar isso? Ou quem sabe até mesmo você já não falou isso, hein?! hehe


Pra finalizar essa parte, por que, então, uma identidade afroindígena é etnocida?


Como a próxima parte já enuncia, um argumento é de que ela perpetua uma visão idealizada, romantizada e estereotipada do que é ser indígena.


Resumidamente, vou apresentar mais alguns argumentos em formas de tópico pra facilitar a minha vida e - tentar facilitar - a leitura de vocês:
  • A criação de uma identidade afroindígena abre precedentes para a criação de uma identidade euroindígena e não se poderá reclamar da segunda se aceitar a primeira. 


Talvez faça sentido evocar o argumento de que negros e indígenas são minorias e sofrem com racismo, por isso não se equipara à criação de uma identidade euroindígena, pois, estaríamos falando de pessoas brancas reivindicando uma identidade birracial em que uma detém de poderes e privilégios decorrentes da estrutura racista, enquanto a outra sofre dos processos de violências e violações decorrentes do racismo. Sinto muito, mas não faz sentido.


Por quê? 1) Processos históricos e sociais distintos entre negros e indígenas; 2) manifestação do racismo diferente entre negros e indígenas; 3) diferentes violências e violações aos povos originários e ao povo preto; 4) diferentes concepções de mundo entre os movimentos indígena e negro; 5) negros não sofrem com o etnocídio, pois, é uma violência referente aos povos originários, em África é possível falar que os pretos sofrem com etnocídio, aqui no Brasil, não, muito pelo contrário: negros estão sujeitos a reproduz tais tipos de violências etnocidas contra indígenas; 6) burocraticamente, embora seja um argumento meio bosta (mas também não descartável), não existem categorias de classificação birracial como afroindígena, então, ao te perguntarem no SUS ou no IBGE (por exemplo) como você se autodeclara, você fará uma opção, certo? Essa decisão talvez diga muita coisa, meua migo.


E também é impossível ser indígena e não-indígena ao mesmo tempo basicamente, porque ser negro é ser não-indígena, então, como criar uma identidade birracial que por si só já é contraditória, haja vista que etnocídio é referente aos povos originários e constituinte em nossos processos históricos, sociais e culturais? Digo, não dá pra falar em indígena e não falar em etnocídio, então, enquanto não-indígena não há essa questão e aí divide os momentos em que sofre as violências etnocidas e os momentos em que não sofre? Isso não faz sentido e isso é uma construção etnocida por si só, porque blinda pessoas não-indígenas negras em nossos apontamentos de posturas e falas etnocidas.


Mas por que não poderá reclamar de euroindígena e aceitar afroindígena? PRA MIM, porque se estamos falando de identidades birraciais ou plurirraciais, então, é preciso saber lidar que pessoas privilegiadas pela estrutura racista (brancas) se valerão dessa ferramenta para criar identidades birraciais que as contemplem, inclusive euroafro/afroeuro, porque essa questão vai além da identidade indígena, atinge também os movimentos negro e amarelo.
  • Ser indígena não é somente uma questão puramente de ancestralidade 

É O QUÊ? Beleza, vamos com calma e sem partir do pressuposto de que o que direi do modo como direi é um consenso ou de que estou estabelecendo que é isso para todos os povos, mas é uma constatação que sempre vejo nos debates entre nós, indígenas, sobre nossas identidades, sobre quem somos. E talvez eu esteja errada e tenha interpretado errado meus parentes e compreendido erroneamente os encantados e meus ancestrais, mas a questão de nossa religiosidade e espiritualidade nunca está descolada de quem somos, de nossa identidade, pois, a divisão do mundo físico com o mundo espiritual é uma criação do não-indígena.


Mas também não é somente sobre nossa religiosidade, envolve nossos processos de formação e de descolonização de pensamento, posturas e visões de mundo, nossas perspectivas e também nossa atuação na luta social e política. Neste sentido, há incongruências entre os movimentos negro e indígena. Não estou falando de forma alguma que não devemos nos aliar e construirmos lutas conjuntamente, NÃO, LONGE DISSO! É sobre o reconhecimento das diferenças entre os movimentos e suas atuações e perspectivas. Algo perfeitamente normal e saudável de se pensar, para que inclusive construções conjuntas sejam feitas harmonicamente e produzam resultados positivos para ambos.
A identidade indígena acaba sendo apagada na própria concepção da identidade afroindígena


Como uma parenta falou e de maneira a descontrair escrevo cá: “por que o afro vem na frente do indígena se nós estávamos aqui antes? Deveríamos falar em indígena-afro”. É em tom de brincadeira, mas poderíamos até questionar a construção de termos aglutinados, né? Mas deixo isso pra quem é da área, hahaha.


Falando sério agora e referente a atuação social e política: como eu disse anteriormente, geralmente vejo pessoas que se autodeclaram negras e atuam no movimento negro reivindicando uma nova identidade afroindígena, fazendo referência ao lado indígena pelos aspectos culturais somente. Isso é problemático e incômodo não só pra mim, até porque só tive coragem de escrever sobre isso porque diversos parentes me deram apoio. Mas nesse cenário de protagonismo central no movimento negro e rápidas aparições no movimento indígena, temos questões de incompatibilidades sobre decisões e perspectivas históricas que nos enfraquece, que nos invisibiliza, que nos apaga.


Não há atualmente um movimento social e político que pauta identidades birraciais como afroindígena, então, as atuações se dão por dois movimentos distintos entre si (se houve a atuação no movimento indígena, que é geralmente quem sai perdendo em meio a isso tudo, por conta do etnocídio). Os indígenas que também têm ancestralidade preta, eu vejo que há justamente a questão que pontuei: o reconhecimento disso e sua valorização, mas não é a reivindicação de quem somos.


3. A identidade afroindígena perpetua uma visão romantizada do que é ser indígena


Optar pela criação de identidades birraciais ou plurirraciais quando se pensa em miscigenação com indígenas é uma forma de manter a ideia de que para ser indígena, é preciso de purismo racial.


Sim, essa parte é só isso mesmo, porque acho que a construção do meu pensamento já foi exposta ao longo do texto e, com isso, dá pra finalizar a última parte da minha reflexão em três linhas. Meu intuito não é desrespeitar ninguém, apenas expor uma reflexão minha que parte de um incômodo e espero que mais debates sobre o tema sejam feitos no próximo ano.


Pensei em discorrer sobre o indígena urbano na periferia, o encarceramento e a violência policial, mas já tá grande demais isso, então vou deixar pra um outro dia, pra um outro texto, porque é assunto à beça!


Só um último adendo: geralmente essa questão é algo que vejo presente em debates feitos por pessoas do Sudeste (eu creio que isso é um aspecto que não deve ser apagado) e a gente precisa começar a tomar cuidado em novas postulações, porque precisamos levar em conta as regiões que constantemente são invisibilizadas por nós, sudestinos, e tomar ciência de que não são os mesmos discursos nem as mesmas realidades e valorizar as produções de debates feitos de fora da bolha São Paulo-Rio de Janeiro (porque até Minas Gerais e Espírito Santo estão meio fora dessa concepção sudestina de concebedora dos discursos a meu ver).

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Apenas ressaltando o início do meu texto: minha reflexão não se propõe a ser uma verdade absoluta ou estabelecer uma regra sobre identidades. Estou apenas expondo um incômodo meu (e sei que de outros parentes também) acerca da construção de uma identidade que acaba por nos apagar mais ainda.

Por, V.I