domingo, 3 de setembro de 2017

Apropriação cultural e mercantilização cultural



 Cocar indígena usado por Karlie Kloss causou polêmica em desfile da Victoria's Secret (2012)
O que pode parecer insignificante foi para muitos motivo para ofensas. "Sofremos atrocidades para sobreviver e garantir que nosso estilo de vida. Qualquer gozação, não importa se seja Halloween ou Victoria's Secret, é como cuspir na nossa cara. Estão cuspindo na nossa cultura, é entristecedor", disse porta-voz da Nação Navajo, Erny Zah, em entrevista à imprensa americana.

E se apropriação cultural fosse pensada nos termos de mercantilização cultural?
Muito recorrente é o debate sobre apropriação cultural em que você tem dois opostos extremos:
Time 8 da negação completa: "apropriação cultural não existe, porque culturas não são propriedade"
Time 80 da extrema individualização: "o indivíduo opressor (branco) se apropria da cultura do oprimido usando X elemento"
Pra mim, nem 8 nem 80, porque o que eu entendo como apropriação/mercantilização cultural é o processo de transformar símbolos e elementos culturais, repletos de significado, de culturas não-hegemônicas em mercadorias.
Mas, por que isso acontece?
Porque o sistema capitalista tem em seu modo de produção uma característica essencial de diferenciação de outros modos de produção: a transformação da força de trabalho em mercadoria. E como isso se relaciona com a cultura?
Bom, o capitalismo se expande em suas formas e, pra mim, uma de suas ordens de expansão é no que se refere ao processo de mercantilização, atingindo esferas da vida e da sociedade que antes não atingia. Como cultura não é algo alheio à sociedade, ela está sujeita a sofrer desse mal chamado mercantilização.
Marx fala sobre a possibilidade de "coisas que, em si e para si, não são mercadorias, mas podem ser postas à venda por dinheiro pelos seus possuidores e assim receber, por meio de seu preço, a forma mercadoria"¹.
Há uma distinção no que tange à cultura, pois, como a cultura não é propriedade pessoal nem privada, não há um possuidor da cultura em si que possa vendê-la em troca de dinheiro. Então, como isso se relaciona com o que eu citei de Marx?
"A riqueza da cultura indígena é extremamente rica, inspirada nas abundantes fauna e flora brasileiras. O que não faltam são elementos para inspirar nossos estilistas a fazerem uma moda com a cara do Brasil." fonte: AlessandraFaria.com

Em minha visão, da seguinte maneira:
Cultura é sobre coletivos e coletividades, então não há cultura de um indivíduo e um indivíduo não tem posse sobre uma cultura.
Contudo, o sistema detém de monopólio sobre o processo de mercantilização e sobre as relações sociais e econômicas, então, ele [sistema capitalista] detém de poder para usurpar elementos culturais de culturas não-hegemônicas, transformá-los em mercadoria, comercializá-los e obter lucro para si.
Neste caso, a coisa [elemento cultural] não é mercadoria, mas é transformada em uma. Não através de seu possuidor, pois, não há, mas através do próprio mercado do sistema capitalista, que atua como regente nessa relação de mercantilização.
"Tendencia á vista! O étnico é uma tendência que vem ganhando força através das temporadas e promete ser o hit do próximo verão trazendo influências africanas, indígenas, árabes e orientais." fonte: continental shopping 
Trata-se, portanto, de uma relação de exploração construída em cima da usurpação de elementos culturais de toda uma coletividade, diferentemente da relação de exploração do trabalhador que vende sua força de trabalho pela sua subsistência. Dessa maneira, não há um mísero contrato que gere algum retorno monetário para essa coletividade. Na minha visão, criando uma nova forma de relação de exploração.
Em outras palavras, cultura em si e para si não é uma mercadoria, tampouco é posse de algum indivíduo para vendê-la, mas se encontra sujeita ao processo de mercantilização do capitalismo através das ferramentas de exploração que retiram elementos culturais de seu contexto, sem o consentimento da coletividade envolvida e afetada.
Sobre o esvaziamento de significados, a forma mercadoria por si só já é esvaziada de significados. Então, obviamente, elementos culturais transformados em mercadorias perdem seus significados tradicionais.
Pra finalizar, em minha opinião, um indivíduo não se apropria de cultura nenhuma, o sistema é quem faz isso. E de quem especificamente estou falando? Das grandes empresas, do 1% da população mundial, da burguesia.
Por mais que o capitalismo contemporâneo crie a imagem de possibilidade de empoderamento individual, não é assim que a banda toca. Assim como não há liberdade individual sem haver liberdade coletiva, não há empoderamento individual dentro de uma estrutura opressora e de exploração.
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"Mas Laís, e um não-indígena usando um cocar, não é apropriação cultural?"
Minha opinião não é a opinião do(s) movimento(s) indígena(s), então, claro que parentes podem ter uma opinião discordante da minha, mas pra mim: não, um não-indígena usando por diversão um cocar comprado no E-bay não está se apropriando das culturas indígenas. Eu apenas acho essa pessoa babaca/imbecil e desrespeitosa.
Quem se apropriou das culturas foi o sistema que transformou o cocar em um mero adorno/ornamento (forma mercadoria, sem significado) e o comercializou para a população. Sim, geralmente o cocar vem acompanhado da postura de "se fantasiar de índio", mas, neste caso em específico [fantasiar-se de indígena], estamos falando de racismo mesmo.
Qual a diferença?
Indígena não é cocar, as identidades dos povos originários não se resumem e/ou se reduzem ao cocar. Portanto, uma pessoa não-indígena não necessariamente está se fantasiando de indígena ao usar um cocar. É nesse espaço que se encontra a diferença entre o racismo da imbecilidade e desrespeito.
"Mas Laís, e indígenas que vendem elementos de suas próprias culturas?"
Bom, papo longo, mas resumidamente: 1) não estamos alheios ao capitalismo, precisamos de meios de subsistência; 2) não há um processo de mercantilização envolvido; 3) não há relação de exploração da coletividade para com seus elementos culturais, seus significados estão presentes e são valorizados.
"Mas Laís, culturas são fluidas"
Sim, concordo, o que isso tem a ver com o sistema capitalista transformar elementos culturais em mercadoria? Nada, segue o baile.

Texto por, Laís Zinha
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¹MARX, K. (1867) O Capital. Livro 1, vol. 1. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1996, p. 226